”O grafite está aí para dizer que as mulheres têm voz”, diz Panmela Castro

PANMELA CASTRO, artista carioca que usa o grafite para promover a valorização da mulher

Como foi sua aproximação com o mundo do grafite?

Panmela Castro: Nasci na Penha, subúrbio do Rio de Janeiro. Foi um dos lugares onde rolou um boom de grafite, muita gente abraçando essa manifestação de arte e cresci vendo os grafites aparecendo cada vez mais. Eu já pintava, fui aluna da escola de Belas Artes, então achei natural passar para a parede. Grafito desde os anos 90, mas em 2005 passei a me dedicar mais intensamente. AGRADEÇO AO SUBÚRBIO. Se tivesse nascido em outro lugar, talvez esse despertar do grafite não rolasse. Foi uma influência importante.

Você assina seu trabalho como Anarkia Boladona. De onde veio o pseudônimo?

PC: A Anarkia foi coisa de adolescente, quando grafitei pela primeira vez foi essa a palavra que escrevi. Me dava uma sensação de liberdade, sabe? O Boladona veio depois, como um apelido, porque eu sou assim, bolada com as coisas. Hoje estou mais calma. Vem também do funk carioca, dos bailes. FUI CRIADA NO MEIO DO FUNK, DA PRAIA, DO PISCINÃO DE RAMOS. É a minha identidade.

Você é reconhecida por divulgar, com o grafite, os direitos da mulher, como a Lei Maria da Penha. Por que associar o seu trabalho a esses temas?

PC: Penso que todo mundo tem que contribuir de alguma forma para nosso país, para nossa cidade, como cidadão, e a minha maneira de contribuir foi falar de uma questão do meu universo, mostrar através dos grafites os direitos das mulheres. Aí nasceu o Grafite Contra a Violência Doméstica. Nas comunidades mais pobres o machismo é muito grande. Mulheres que são agredidas vão à delegacia dizendo que não deram motivo para apanhar. Como se houvesse motivo que justificasse uma agressão. A questão ainda é cultural, existe essa desigualdade de gênero absurda. O GRAFITE ESTÁ AÍ PARA DIZER A ESSAS MULHERES QUE ELAS TÊM VOZ. Que elas podem ser e fazer o que quiserem.

E dentro do grafite, você já foi vítima dessa desigualdade de gênero?

PC: No meu meio eu recebo muito apoio, mas PRECONCEITO EXISTE EM TODAS AS ÁREAS. Tem no grafite, na engenharia, em toda profissão. Aconteceu de forma subjetiva, muito velada. Acham ótimo ter uma grafiteira, uma mulher que rabisque, mas muitos caras duvidam que a técnica da mulher vai se igualar ou ser melhor que a deles.

Seu nome foi parar na lista das 150 mulheres que podem mudar o mundo, feita pela revista gringa Newsweek. O que isso significa para você?

PC: Me sinto privilegiada. APENAS DUAS BRASILEIRAS FORAM DESTAQUE: A PRESIDENTE DILMA ROUSSEFF E EU. Com o grafite eu pude não apenas lutar por uma sociedade melhor, mas também ver o mundo, visitar lugares, conhecer pessoas. Já fiz trabalhos em Paris, Praga, Viena, Nova York. Minha missão é essa. Fortalecer os direitos das mulheres, lutar por mudanças de valores onde quer que eu esteja.

 

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